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Homicidas são perfeccionistas – doutoramento na UA
2018/03/27

Os resultados do Doutoramento em Psicologia da Universidade de Aveiro, de Dulce Pires, com a participação de 30 homicidas presos em vários estabelecimentos prisionais do país, condenados por homicídio voluntário, na forma simples, qualificada e privilegiada, mostraram que "este grupo estudado mostrou tendência para o perfeccionismo, controlo e inflexibilidade, com dificuldade em identificar algumas emoções, apresentando ainda sintomas de stresse pós-traumático".

Os trinta condenados por homicídio passional e familiar ou decorrente de negócios ilícitos, de assaltos, de altercações ou de vingança - "distinguiram-se dos indivíduos do grupo de controlo por pontuações mais elevadas na escala da Compulsividade e nas respetivas características associadas".

Realizou uma "bateria de testes e entrevistas a todos, de avaliação de psicopatologia, da personalidade, de psicopatia e da forma como identificam e processam as emoções". Também com um grupo de três dezenas de homens sem história criminal recrutados aleatoriamente na comunidade para comparação.

É a "primeira vez em Portugal, um grupo de psicólogos avaliou os sintomas psicopatológicos, a personalidade e o processamento emocional de reclusos condenados por homicídio", segundo comunicado.

A "Perturbação de Personalidade Obsessivo-Compulsiva" reporta-se a pessoas com tendência a uma "preocupação com a ordem, perfecionismo, controlo mental e interpessoal e dependendo do grau de severidade, esta perturbação pode interferir em todas as áreas da vida”, segundo a psicóloga Dulce Pires, cujo estudo foi orientado por Isabel Santos, Carlos Fernandes da Silva e Ana Allen Gomes.

Dulce Pires identificou ainda sintomas de stresse pós-traumático o que reporta a existência de sintomas relacionados com algum tipo de trauma psicológico. “Sabemos, pela literatura, que nestes indivíduos, além de poderem existir traumas relacionados com acontecimentos de vida, como na restante população, o próprio crime pode constituir um trauma”, explica Dulce Pires.

Quanto à caracterização da personalidade, “salienta-se o resultado na faceta da impulsividade, que é considerada na literatura científica como um fator de risco do comportamento criminal”.

O estudo alerta para a necessidade de acompanhamento psicológico desta população em contexto prisional e após o cumprimento da pena.

INFO
Psicopatia e dificuldade no reconhecimento de emoções
Outro aspeto diferenciador entre os grupos estudados foi a presença de psicopatia nos reclusos condenados por homicídio em comparação com o grupo de controlo, que não apresentou indícios. “Este aspeto tem estado presente na literatura científica, em variados estudos, associados ao comportamento violento. A presença de características de psicopatia continua a ser um fator de relevo presente nalguns indivíduos que cometem este tipo de crime”, diz.

Já no processamento emocional, a investigadora encontrou diferenças em ambos os grupos, pelo que “o grupo de reclusos apresentou um padrão de desempenho ao nível da identificação e reconhecimento das emoções diferente do encontrado no grupo de controlo”, por exemplo, no que diz respeito às emoções de medo, alegria, tristeza, surpresa. Existindo interpretações erradas na identificação e reconhecimento de emoções, explica a especialista, “estas afetam a forma como o indivíduo se relaciona com o outro, como interpreta as situações quotidianas, podendo em situações críticas, de conflito, constituir um fator de risco na passagem ao ato, e também assim a nível do comportamento violento”.

Mais e melhor acompanhamento psicológico
“O homicídio é um fenómeno extremamente complexo, que ocorre no contexto de uma multiplicidade de fatores, quer pessoais, quer culturais e situacionais, sendo fundamental a continuidade dos estudos e das investigações que atendam não só a este tipo de crime como a outros, no foco da sua especificidade”, aponta Dulce Pires.

Assim, a investigação da UA pretende ser um indicador dos aspetos importantes a trabalhar com indivíduos condenados por homicídio, quer ao nível do tratamento de psicopatologia quer ao nível da identificação e gestão de emoções. A investigadora reforça desta forma “a importância da avaliação psicológica e tratamento em contexto prisional, e após o cumprimento da pena, já em sociedade”. Para tal “será necessário um reforço a nível de especialistas na área da psicologia e psiquiatria” para poder fazer face a estas necessidades. “Estes indivíduos necessitam de apoio continuado a nível psicológico e social”, alerta a psicóloga.

Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, a investigadora, durante o seu percurso profissional, desempenhou também funções enquanto Psicóloga Clínica e Formadora em contexto prisional, tendo trabalhado no sistema prisional nacional diretamente com reclusos condenados por este e outros tipos de crime.

Para além das áreas do tratamento e reabilitação, o estudo pretende ajudar igualmente os profissionais da investigação criminal e da prevenção, pela informação que pode dar no entendimento do crime e do ofensor.

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